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Psicologia Clínica

Por que durmo muito e acordo exausto?

Thiago Ribeiro

Thiago Ribeiro

Psicólogo Clínico | CRP 22/00658
25 de fev.7 min
Por que durmo muito e acordo exausto?

Por que durmo muito e acordo exausto?

Sofia dormiu nove horas. Deveria estar descansada, certo? Mas quando o despertador tocou, ela sentiu como se não tivesse dormido nada. O corpo estava pesado, a mente nebulosa. Ela apertou o botão de soneca. E de novo. E de novo. Quando finalmente se levantou, já estava atrasada. Durante o dia, lutou contra a exaustão. À noite, foi dormir cedo, esperando que dessa vez acordaria renovada. Mas não. No dia seguinte, a mesma coisa. E no outro. E no outro.

Ela começou a se perguntar: "O que há de errado comigo? Por que, mesmo dormindo tanto, eu acordo tão cansada?"

Se você se identifica com Sofia, saiba que não está sozinha. E não, você não é "preguiçosa" nem está "inventando" cansaço. Há razões reais — e tratáveis — para essa exaustão persistente.

Sono não é só quantidade, é qualidade

Muitas pessoas acreditam que dormir muitas horas automaticamente significa estar descansada. Mas a qualidade do sono é tão importante quanto a quantidade. Você pode dormir dez horas e acordar exausta se o sono não foi reparador.

O sono tem diferentes estágios — sono leve, sono profundo e sono REM (quando sonhamos). Cada estágio tem uma função específica. O sono profundo é especialmente importante para a recuperação física. O sono REM é crucial para a regulação emocional e consolidação de memórias.

Quando algo interfere nesses estágios — seja estresse, ansiedade, depressão, ou outros fatores — você pode dormir muitas horas mas não passar tempo suficiente nos estágios reparadores. Resultado: acorda exausta.

O papel da depressão

Um dos sintomas menos conhecidos, mas muito comuns, da depressão é a hipersonia — dormir excessivamente. Diferente da insônia (que também pode acontecer na depressão), a hipersonia faz com que você durma muito, mas mesmo assim se sinta constantemente cansada.

Por quê? Porque na depressão, o cérebro está em um estado de baixa energia. Há alterações nos neurotransmissores (como serotonina e dopamina) que afetam tanto o humor quanto a energia. O sono se torna uma forma de "fuga" — quando você está dormindo, não precisa lidar com a tristeza, o vazio, a falta de motivação.

Mas esse sono não é reparador. É um sono "pesado", muitas vezes acompanhado de sonhos perturbadores ou sensação de estar "desligada" mas não realmente descansando.

Marsha Linehan, criadora da DBT, fala sobre como emoções intensas e não processadas afetam o corpo de formas que nem sempre são óbvias. A exaustão crônica pode ser uma manifestação física de sofrimento emocional.

Ansiedade e sono não reparador

Mesmo quando você consegue dormir, se está lidando com ansiedade crônica, seu corpo pode permanecer em estado de alerta. Seu sistema nervoso não "desliga" completamente. Você pode estar fisicamente deitada, mas internamente, seu corpo está tenso, em modo de "luta ou fuga".

Isso impede que você entre nos estágios mais profundos do sono. Você pode até sonhar que está resolvendo problemas, trabalhando, lidando com situações estressantes. Seu cérebro não descansa. Então você acorda tão cansada quanto estava quando deitou.

Steven Hayes, criador da ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), fala sobre como a luta contra pensamentos e emoções desconfortáveis consome energia mental. Se você passa a noite (mesmo dormindo) lutando internamente contra preocupações, medos, ruminações, não é surpresa que acorde exausta.

Esgotamento emocional

Muitas mulheres que dormem muito e acordam exaustas estão lidando com esgotamento emocional (burnout). Isso não acontece só no trabalho. Pode acontecer em qualquer área da vida onde você está constantemente dando sem receber, cuidando de todo mundo menos de si mesma, carregando responsabilidades demais.

O esgotamento emocional não se resolve apenas com sono. Você pode dormir 12 horas e ainda acordar exausta porque o que você precisa não é descanso físico — é descanso emocional. É parar de carregar tanto. É ter espaço para sentir, para processar, para ser cuidada.

Leslie Greenberg, da Terapia Focada nas Emoções, nos ensina que emoções suprimidas não desaparecem. Elas ficam ali, consumindo energia. Quando você passa meses ou anos "segurando as pontas", sendo forte, não permitindo que suas emoções sejam vistas ou sentidas, isso cobra um preço. E esse preço muitas vezes se manifesta como exaustão crônica.

Outros fatores a considerar

Embora causas emocionais sejam muito comuns, é importante também descartar causas físicas. Algumas condições médicas podem causar sono excessivo e exaustão persistente:

Apneia do sono: Interrupções na respiração durante o sono, que fazem com que você acorde várias vezes (mesmo sem perceber), impedindo sono profundo.

Hipotireoidismo: Quando a tireoide não produz hormônios suficientes, causando cansaço extremo, ganho de peso, lentidão mental.

Ilustração 1

Anemia: Baixos níveis de ferro no sangue, causando fadiga persistente.

Deficiências vitamínicas: Especialmente vitamina D e vitamina B12.

Se você está dormindo muito e acordando exausta há várias semanas, é importante fazer um check-up médico para descartar essas causas. Mas se os exames estão normais e a exaustão continua, é muito provável que seja emocional.

O que fazer?

Primeiro, pare de se julgar. Você não é preguiçosa. Você não está "inventando" cansaço. Seu corpo está te dizendo que algo não está bem. Ouça.

Segundo, observe seus padrões. Quando a exaustão começou? O que estava acontecendo na sua vida nessa época? Houve alguma mudança, perda, aumento de estresse? Há alguma emoção que você está evitando sentir?

Terceiro, melhore a higiene do sono. Mesmo que o problema seja emocional, melhorar a qualidade do sono pode ajudar. Evite telas antes de dormir, crie uma rotina relaxante, mantenha o quarto escuro e fresco, evite cafeína à tarde.

Quarto, movimente o corpo. Parece contraditório, mas exercício físico (mesmo leve, como uma caminhada) pode melhorar a qualidade do sono e aumentar a energia durante o dia. Comece devagar.

Quinto, procure ajuda profissional. Se a exaustão está afetando sua vida, se você suspeita de depressão ou ansiedade, ou se simplesmente não sabe mais o que fazer, procure um psicólogo. Terapia pode te ajudar a identificar e processar as emoções que estão drenando sua energia.

Você merece se sentir viva

Viver constantemente exausta não é normal. Não é "parte de ser adulta". Não é algo que você tem que aceitar. Você merece acordar com energia, com vontade de viver o dia, com leveza.

Carl Rogers dizia que cada pessoa tem dentro de si uma tendência natural para o crescimento e a vitalidade. Quando essa vitalidade está bloqueada, algo precisa ser cuidado. E você merece esse cuidado.

Onde buscar ajuda

Se você está lidando com sono excessivo e exaustão persistente, comece com um check-up médico para descartar causas físicas. Se os exames estiverem normais, procure um psicólogo especializado em depressão, ansiedade e esgotamento emocional.

Abordagens como a DBT, ACT, Terapia Focada nas Emoções e Terapia do Esquema são especialmente eficazes para trabalhar com regulação emocional e padrões que levam ao esgotamento.

Referências

Greenberg, L. S. (2015). Emotion-Focused Therapy: Coaching Clients to Work Through Their Feelings. American Psychological Association.

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change. Guilford Press.

Linehan, M. M. (2018). Treinamento de Habilidades em DBT: Manual de Terapia Comportamental Dialética para o Terapeuta. Artmed.

Rogers, C. R. (1961). Tornar-se Pessoa. Martins Fontes.


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Thiago Ribeiro

Thiago Ribeiro

Psicólogo Clínico | CRP 22/00658

Psicólogo com mais de 15 anos de experiência, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia do Esquema. Analista Judiciário do TJMA, atua com avaliações psicológicas em contextos forenses e atendimento clínico humanizado, focado no acolhimento e transformação pessoal.

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